Onde ir Restaurantes

Banquete caseiro indiano: encomende o seu. É bom dum tanto…

Samosas Vegetarianas recheadas de batata, ervilha e uva passa (os pontinhos pretos são sementes de cebola, importadas da Índia)

A mistura de especiarias e temperos, a cor sedutora dos pratos, o aroma complexo e inebriante, os sabores intensos. Tudo na comida indiana me atrai, me agrada. Não seria exagero nenhum dizer que essa culinária, ao lado da tailandesa, é a minha predileta—nada nela é blasè, suavezinho, insosso. Nada passa despercebido. Nada é indiferente.

Chakali (snacks crocantes feitos de farinha de arroz e grão de bico), pastas de pimenta, de hortelã e de tamarindo e o delicioso Chicken Tikka (sobrecoxas assadas marinadas em coalhada e especiariais)

Brasileiros, em geral, tem o preconceito “ai, é picante demais” perante um prato do Chicken Tikka ou de uma samosa. Acham, mesmo sem provar, que vão morrer engasgados pela potência nuclear da picância. Mentira. A comida indiana leva pimenta para incrementar o gosto—tipos diferentes em cada prato, com sabores diferentes—e não para anestesiar as papilas gustativas. Quem já comeu um masala caseiro bem feito, belamente incorporado a tenros pedaços de cordeiro, por exemplo, sabe o que estou falando— essa mistura de temperos tão rica e pessoal (cada família tem a sua receita) é um segredo do cozinheiro, algo que dá a ele o poder de ter pratos únicos, não copiáveis.

Prawn Masala: camarões com curry de coco, amendoim e gergelim

Temos, em São Paulo e no Brasil, um número ínfimo de restaurantes indianos. Alguns, infelizmente, fecham depois de poucos anos por falta de clientes. Acabamos ficando preso a genéricos pasteurizados ou endereços com preços abusivos. Por isso, quando vi a notícia sobre a cozinheira Deepali Bavaskar no blog do meu amigo Marcelo Katsuki, fiquei tão animada: era minha oportunidade de provar a real comida caseira indiana, já que ainda não fui à Índia. Comida sem frescura ou conversa pra boi dormir, sem exageros. A comida real. Então lá fui eu ligar para Deepali, que mora no Brasil há 14 anos com seu marido, Veejay– um ex-executivo da indústria farmacêutica que já viveu na Rússia e na África do Sul– e que decidiu cozinhar para além de seus familiares.

Conserva de limão-- guardada por 4 anos!!!!-- acompanha de parathas com coentro

Deepali sempre cozinhou em casa, para o maridos e os dois filhos, mas começou a encarar isso como profissão quando Veejay sofreu um ataque cardíaco e foi demitido (tudo no intervalo de duas semanas). Para manter o orçamento da família em dia, decidiu fazer marmitex para a comunidade indiana e vender samosas em feiras promovidas para o Consulado. A fama foi se espalhando e ela quer, agora, montar uma cozinha industrial— ainda faz todos os pratos em seu apartamento—e abrir uma rotisserie indiana. Enquanto isso, Deepali e Veejay (o primeiro casal com casamento arranjado que conheci!) recebem encomendas para almoços e jantares e entregam tudo quente, cheiroso e incrivelmente bom.

Mutton Biryani: arroz basmati, carne de cabrito desfiada, castanha de caju, amêndoas, uvas passas e açafrão

Liguei em sua casa, disse ser jornalista e que estava morrendo enforcada pelas minhas próprias lombrigas de vontade de provar seus pratos. Ela topou fazer um jantar para mim e mais quatro amigos em sua casa. Olha, que noite!

Sentados no chão, morrendo de rir com as histórias de Veejay, a refeição começou com Chakali (R$ 40, o quilo), biscoitos mega crocantes feitos de massa de arroz e grão de bico. Depois, grandes e lindas samosas vegetarianas (R$ 2, a unidade), fritinhas na hora, recheadas de batata, ervilha e uva passa, acompanhadas por uma pasta de pimenta, outra de hortelã e de tamarindo. Na sequência, Chicken Tikka (R$ 50, o quilo)—pedaços suculentos de sobrecoxa de frango longamente marinados numa mistura de coalhada e especiarias e, então, assados.

Tandoori Chicken: sobrecoxas marinadas em temperos indianos, levemente picante

Enquanto Veejay enchia nossos copos de vinho branco geladinho, sentíamos os aromas que voavam da cozinha para a sala e salivamos feitos cachorros com fome, apesar de fome mesmo já não existir mais naquela altura. Resolvemos ir para a mesa quando Deepali começou a enchê-la de vasilhas repletas de…. pra mim, repletas de felicidade plena.

Roghan Ghost: carne de cabrito com curry de amêndoas e iogurte e parathas quentinho

Grandes e apimentadas na medidas, as sobrecoxas Tandoori Chicken (marinadas em especiarias, levam esse nome porque, usualmente, são assadas no forno de nome tandoor, R$ 5, a unidade) foram apenas o prelúdio para o adocicado, cremoso, intenso e sensacional Prawn Masala (camarões com curry de coco com amendoim e gergelim, R$ 100, o quilo), o prato predileto de três de nós. O outro prêmio de “caceta, que coisa boa!” foi para o Mutton Biryani (R$ 90, o quilo),  arroz basmati lentamente cozido por carne de cabrito desfiada, castanha de caju, amêndoas, uvas passas e açafrão. Então Veejay aparece segurando uma bandejinha lindamente arrumada com fatias triangulares de parathas (pão caseiro de farinha de trigo recheado com creme de batatas) com coentro e uma espécie de chutney num potinho no centro. “Vocês tem que experimentar isso. Ninguém faz essa receita no Brasil. É conserva de limão e açúcar”, disse.

Com base nestes ingredientes, pensei que fosse algo comum. Mas na hora em que a coloquei na boca, minha garganta, cérebro e cordas vocais se uniram no fundo do meu crânio—um sabor encorpado e altamente perfumado explodiu. “Ele está curtindo há 4 anos”, falou Deepali. Quatro anos que transformaram dois ingredientes triviais em uma iguaria exótica e delirante (R$ 15, 100 gramas).

Shrikhand: sobremesa divina e geladinha feita a base de iogurte, açúcar, cardamomo e pistache moído

Para amenizar o paladar, comi o caudaloso e espesso Rogan Josh (carne de cabrito com curry de amêndoas e iogurte, R$ 75, o quilo) e terminei quase matando a tigela toda de Shrikhand (R$ 60, o quilo), uma sobremesa divina e geladinha feita a base de iogurte, açúcar, cardamomo e pistache moído.

Depois dessa noite, tive uma certeza: posso morar na casa da Deepali. Ou, mais especificamente, em sua cozinha.

Para encomendar samosas, jantares, almoços ou piqueniques indianos:
Sabores da Índia: Tel.: (11) 3253-7671 / Cel.: (11) 8556-9779, 
deepali@saboresdaindia.com.br. Eles ainda não tem site, mas pode ligar que Veejay explica tudo direitinho e apresenta todos os pratos do menu– que, em breve, provarei todos.

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7 Comentários

Comida indiana é do tipo ame ou odeie. Não sou hippie mas adoro a Índia e sou um dos que amam a comida. Procuro há muito tempo um bom restaurante indiano em SP, que dê para comer samosas assim, com a massa mais espessa, como se come na Índia. Vou experimentar a cozinha da Dona Bavaskar.

Só faltou um Gulab Jamun para coroar seu jantar, embora essa sobremesa pareça bem interessante.

Bruno A. @ julho 1, 2011 - 19:21

Que lindos os pratos e que vontade de voltar para o Brasil para degusta-los novamente.

Comi em restaurantes indianos em varios paises do mundo, estive na India varias vezes, em Melbourne (onde moro) ha restaurantes Indianos em abundancia e posso assegurar que a Deepali tem talento culinario que muitos ‘chefs’ na India e em outros paises invejariam.

Para quem tem duvida sobre o que experimentar: experimente todos os pratos pois sao todos muito bons!!

Vidula Sawant

Vidula Sawant @ julho 2, 2011 - 21:18

Que lombriga gigantesca esse post me causou. Infelizmente nem meu namorado ou amigos gostam de comida indiana. Acho que encomendarei um jantar “single” e ficarei plenamente feliz e satisfeita mesmo que seja em solidão..rs

Tamyris Roxo @ julho 4, 2011 - 18:21

Tive a oportunidade de provar e digo que os sabores são indescritíveis.
Até hoje sinto falta das comidas e quitutes da Chef Deepali. Hmmm
Ainda não encontrei em nenhum restaurante algo ao menos parecido.

Recomendadíssima.

Alex Camargo @ julho 4, 2011 - 19:26

O correto é Rogan JOSH, e não Rogan “Ghost”.

Alexandre F. @ julho 7, 2011 - 02:04

Dear Alexandre F
Good observation thanks for suggesting correction.
It seems in past you have eat this dish, I would suggest you try the one Deepali prepares.

Regards,

Vijay Bavaskar @ julho 7, 2011 - 09:34

Muito legal o post. Uma coisa que pouca gente sabe é da influência direta da culinária indiana com a culinária baiana, ambas baseadas nos mesmos ingredientes: leite de coco, pimentas e azeite de dendê (que pra eles é conhecido como palm oil, ou seja, óleo de palma – sendo, se não o maior, um dos maiores produtores e exportadores do dendê). No auge da expansão marítima européia, onde as especiarias indianas eram muito valorizadas foi exatamente na época do descobrimento do Brasil, onde navios portugueses carregados de escravos africanos (daí tb as outras influências) e de produtos orientais desembarcavam na costa baiana misturando assim as culturas e dando mais sabor à nossa comida!

Nilton @ julho 29, 2011 - 15:15


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