Onde ir Restaurantes

Jantar no Clandestino: 13 pratos e uma noite memorável

A chef Bel Coelho na finalização dos pratos

A chef Bel Coelho é uma mulher bonita– e isso, incrivelmente, tem sido um problema para ela. Ridiculamente, tem sido um problema.

Bel ficou famosa há cerca de 6 anos, ao assumir a cozinha do finado Sabuji; não tardou para  sair em diversas publicações de gastronomia. Chamou atenção também das revistas masculinas e, em março de 2007, foi capa da Trip, em um ensaio sensual. Não basta ter assumido, após isso, a cozinha do Buddha Bar, ter estudado em Londres ou aberto, há dois anos, o seu bem sucedido DUI. Os críticos mais babacas preferem ignorar o evidente talento e dedicação da chef e bater na tecla “a cozinheira que se importa mais em ser gostosa do que em ser boa no que faz”. Quer dizer que para ser boa profissional uma mulher precisa ser feia e ensebada? Sei lá, mas isso me parece bem machista e preconceituoso.

Caramelo com creme de marrom glacê e raguzinho de costela de porco

Bel é bonita, sim, e também é uma cozinheira criativa, inquieta. Bonita E talentosa— características que, de forma alguma, são excludentes. Do mesmo jeito que alguém pode ser corintiano e japonês ou peruano e vegetariano. Simples assim. Quando feiúra se tornou sinônimo de estrelas Michelin?

Mas vamos ao que interessa.

O salão do Clandestino: apenas 20 lugares e somente no jantar de quinta

Além de mudar alguns itens do cardápio do DUI com frequência, Bel tem o projeto Clandestino, no qual coloca na mesa seu lado mais autoral. O Clandestino funciona no andar de cima do restaurante, com apenas 30 lugares que ficam de frente para cozinha aberta de onde sai o menu de 13 etapas. Somente nos jantares de quinta, durante alguns meses por ano, Bel serve essas trezes delícias sutis, impactantes, criativas e, acima de tudo, saborosas. Seu talento, ali, fica evidente até para o mais anencéfalo gastrochato.

Não tive a oportunidade de provar o menu do no ano passado, mas posso dizer que o cardápio deste ano está… impecável. Com criações de finalização feminina como o Caramelo com creme de marrom glacê e ragú de costela de porco ou inovadora como a Saladinha brasileira (creme de pupunha, gelatina de tomate, beterraba crispy e espuma de pepino), uma refeição no Clandestino é uma ótima experiência.

Bombom de foie gras com gelatina de cachaça, limão cravo e compota de caju

O salão a meia luz, o serviço eficiente, a possibilidade de observar a chef trabalhando, a sequência de sabores e texturas, tudo faz o jantar no Clandestino ser especial, calmo, interessante. E, porque não, bonito.

O menu custa R$ 195 por pessoa (é necessário reservar). Se quiser harmonizar com vinhos, sai mais R$ 140– os rótulos são Cava Gramana Rosé Brut Pino Noir, Obession Symphony, Tokaji Furmint, Barmès Buecher Pinot Noir Villes Vigne, Winemaster´s Reserve Noble Nederburg Late Harvest, Jérez Pedro Ximenez El Maestro. Mas, olha, peguei uma garrafa de bom branco português por R$ 70 e me diverti bastante.

Saladinha brasileira

A refeição começa com um bom Croquete de mandioquinha com queijo meia cura e viciante farofa de aviú (camarãode água doce) seco.

Segue com a deliciosa mistura doce do Caramelo com creme de marrom glacê recheado com um denso e aromático ragú de costela de porco.

Então, o sensacional Bombom de foie gras com gelatina de cachaça, limão cravo e compota de cajú.

Coxinha líquida: dá vontade de pedir uma porção

O prato que veio depois causou um furor na mesa: todo mundo queria pedir uma porção tamanho família da coxinha líquida. Para ser comida numa bocada só, a carne desfiada do frango, super bem temperada, vinha coroada por farinha panko e uma esfera de catupiry que também continha o sabor da massa. Aquilo explodiu na boca, com a panko dando a textura da fritura– coxinha nota 10!

Para não dizer que não comemos salada, a ótima Saladinha brasileira: creme de pupunha, gelatina de tomate, beterraba crispy e espuma de pepino.

O Carpaccio de vieiras com tamarillo, bottarga e vinagrete de wasabi

Carpaccio de vieiras com tamarillo, bottarga e vinagrete de wasabi

O Atum em crosta de chá preto com chutney de manga, bok choy(acelga chinesa) e tarê de coco

Atum em crosta de chá preto com chutney de manga, bok choy e tarê de coco

Costela de tambaqui em baixa temperatura ao molho de açai, purê de banana e farofa de castanha do Pará

Costela de tambaqui em baixa temperatura, purê de banana da terra, farofa de castanha do pará e molho de açai

O Pato no tucupi com gosto sutil demais do… tucupi, mas textura excepcional.

Pato no Tucupi

Ovo P.F.: ovo perfeito realmente perfeito (gema moliiiiiiiinha que espamarrava sobre o feijão), couve crocante, farofa de linguiça e creme de feijão

Ovo P.F.

Primeira das sobremesas, a Zona da Mata trazia sabores cintilantes de frutas como siriguela e cajá.

A sobremesa Zona da Mata leva frutas como seriguela e cajá

O sensacional e sedoso Doce de abóbora Clandestino

Doce de abóbora Clandestino

E, para finalizar, o sensacional Creme brulê com chocolate 100% cacau com azeite e caramelo de especiarias.

Creme Brule de chocolate 100% cacau com azeite e caramelo de especiarias

Um jantar memorável.

Clandestino: apenas no jantar de quinta, à partir das 20h30, somente com reserva. Alameda Franca, 1590, Jardins, tel:  2649-7952

Fazer um comentário

Seja bem-vindo. Sua opinião é importante. Comentários ofensivos ou com identidades falsas serão reprovados.

10 Comentários

Nossa, eu já tinha ido no ‘Forró Secreto’, mas não sabia que existia o ‘jantar Clandestino’: idéia interessante e tentadora. Acho que vale a pena heim? Abraços Ailin…

Erica Almeida @ maio 8, 2011 - 16:59

Jantar realmente memoravel!! Fui nos dois e estao entre as melhores refeicoes da minha vida sem duvida!!! Bel nos presenteia com seus sabores e seu talento irretocaveis!!!

Renata cruz @ maio 8, 2011 - 18:06

O Clandestino anterior ja era uma experiencia gasronomica memoravel, a Bel parece ter se superado mais uma vez e nao so escreve como executa tendencias autenticas. Parabens por todo trabalho, tenho certeza que o merecido reconhecimento pela critica especializada, ate internacional, vira em breve. Vou juntar a turma e provar sem falta.

Bera @ maio 8, 2011 - 22:00

Até gostaria que existisse essa lógica inversamente proporcional entre beleza e um reconhecimento Michellin. Assim eu tenho certeza de que, pelo menos, eu ganharia no mínimo uma estrelinha. Mas como não é assim, tenho que trabalhar muito.
Sou suspeito para falar, pois, trabalhei com a Bel a seis anos atras lá no sabuji. E digo que desde então sou fã incondicional dessa cozinheira.
E no que diz respeito ao preconceito, infelizmente não se trata somente por parte da imprensa. Defendo e tb sofro com isso por parte da imprensa, clientes e até outros Chefs colegas de profissão. Seja por um rostinho bonitinho como no caso da Bel (e diga-se de passagem é bem mais que isso) ou seja pela cara de novo onde posso falar por causa própria.
Enfim, tive o imenso prazer de passar semana passada trabalhando no Dui para matar a saudade e reafirmo: a Bel

Thiago MAIA @ maio 9, 2011 - 10:36

Gostaria de lançar uma provocação para debate: mesmo sendo a Bel, uma comida autoral, criativa e extraordinária… se eu fosse no clandestino com o meu marido e fossemos jantar com a harmonização de vinhos, gastaríamos na noite: por volta de 550 reais. Será que não é muito para um jantar a dois? Fica a pergunta no ar… abraços a todos.

Erica Almeida @ maio 9, 2011 - 13:26

Também estava esta noite no Clandestino, comemorando meus 2 anos de casamento. Foi mesmo uma noite icrível!

Duda @ maio 9, 2011 - 19:23

Erica Almeida… se a gente considerar que o salário mínimo no nosso país é R$545, 00 sim, é mto para um jantar a dois.
Maaaas a vida é feita de momentos e mais vale um gosto que dinheiro no bolso, (segundo a minha mãe) e num lugar desse a coisa mais barata que pagamos é a comida, pois nesse valor está incluso toda a atenção no atendimento, o design do lugar e nesse caso em especial, o mais caro é a exclusividade.
Tive o prazer de ir no Dui algumas vezes, e todas memoráveis, e tenho certeza que se eu tivesse pago R$50 na conta não lembraria com tanto carinho, pois é uma forma de valorizarmos o restaurante e guarda-lo para momentos especiais, pelo menos no meu caso.

Marcelle @ maio 10, 2011 - 00:01

Bem lembrado Marcelle: minha mão sempre me diz isto também: “mais vale um gosto que dinheiro no bolso”… como falei, sabemos que no pacote está todas as coisas especiais do momento (cozinha autoral, criatividade, exclusividade, beleza, a atmosfera geral etc)… TENHO CERTEZA QUE SE EU FOR AO CLANDESTINO VOU ACHAR MEMORÁVEL E MARAVILHOSOS TAMBÉM… acho sim uma experiência digna de lembranças e elogios incríveis… uma data realmente especial para recordar com carinho e entusiasmo…. mas nós que trabalhamos e sabemos com é duro ganhar o pão de cada dia, sabemos que no fundo o valor assusta um pouquinho… Mas não estou de maneira nenhuma questionando a qualidade de tudo o que é apresentado neste jantar (e falo aqui também das coisa que não pegamos, nem comemos)… mas sim questonando e colocando em debate o valor mesmo das coisas em são paulo. Abraços e obrigada pela oportunidade de dialogar!

Erica Almeida @ maio 10, 2011 - 11:31

Algumas coisas acho exagero, por ex o cozimento em baixa temp do tambaqui, que ja é uma carne super macia, de cozimento rapido, ou seja, nao perderia suas propriedades/sabores. Outras fiquei na duvida, por ex, onde está a parte liquida da coxinha? E como hj servir ovo com gema mole? Essa realmente me intrigou já que, a vigilancia proibiu a venda de “ovo mole” e em mais nenhum local estao servindo desta forma (para mim um pecado mortal, nada melhor q uma gema mole!).

Carol @ maio 16, 2011 - 11:30

$550 dracmas?
Não obrigado. Pela metade disso eu faço um BAITA jantar para a minha esposa. Claro que não com a mesma qualidade, requinte e criatividade, mas certamente com um melhor custo-benefício

Lucas @ maio 30, 2011 - 12:06


Você também vai gostar de ler