Tenda do Nilo: a tradição continua intacta

Deliciosa couve-flor frita, regada com molho tarator

As irmãs Olinda e Xmune Isper já cansaram de ganhar prêmios: melhor esfiha, melhor falafel, melhor sobremesa… Isso poderia ter transformado o Tenda do Nilo em um lugar plastificado e/ou imenso e/ou com duzentas filiais. Mas, não: o restaurante continua com apenas 21 lugares distribuídos no minúsculo salão (com cara de bar) e na calçada de uma esquina do bairro do Paraíso. Olinda continua indo a todas as mesas aconselhar os clientes sobre a melhor maneira de aproveitar a comida (“Coma esfiha com a mão”; “Não deixe de colocar azeite nas pastas”; “Não coma kibe com mhamara”), atitude que poderia ser chata e intrusiva, mas é absolutamente carinhosa.

Trigo grosso com costela de boi desfiada

Tive sorte de, mesmo em um sábado de muuuuuuuuuuuuito movimento, conseguir sentar em menos de cinco minutos. Já fui logo pedindo um trio de pastas com mhamara– feita de pimentão e nozes–, coalhada e homus (R$ 26,50); esfihas fechadas de carne, verdura e ricota temperada (R$ 3,80, cada) e um quibe frito (R$ 4,80). Poxa, precisava forrar o estômago enquanto lia o resto do cardápio! Pastas perfeitas: coalhada suave, com acidez ideal, mahamara bem temperada. E a massa das esfihas… As melhores que já comi: finíssima, mesmo nas dobras, cede à mordida com delicadeza, desmanchando-se no céu da boca.  Quibe com uso primoroso da canela, carne soltinha envolvida por uma capa crocante de trigo com fritura perfeita.

Quibe frito, esfiha de carne, coalhada e mahmara: impecáveis

Aconselhada por Olinda, pedi a couve-flor frita regada com molho de gergelim– tarator–, servida somente às quartas e sábados. Falando assim parece a coisa mais sem graça do mundo. Experimente para ver: o legume, envolvido pelo sabor do gergelim, tem o interior ligeiramente resistente ao dente (ODEIO brócolis e couve-flor molões, parecendo papinha de nenê) e exterior com um toque crocante adquirido na rápida fritura. É de pegar com o dedo o final do molho na travessa. Custa R$ 15,80 (meia porção).

Mil e Uma Noites: bolo de semolina molhadinho com água de flor de laranjeira e coberto por creme de nata levíssimo, polvilhado com pistache moído

Empolgada, e querendo comer o menu todo, resolvi provar o trigo com costela de boi desfiada (R$ 33,50)– grão grosso de consistência macia, lembrando um cuscuz, com cebolas douradas fritas e boa (porém pouquíssima) carne. Fiquei meio decepciona, assumo. Para terminar, fui na sobremesa mil e uma noites, já eleita a melhor de São Paulo por um jornal. Imensa, cheirosa e linda, é composta por duas camadas: bolo de semolina molhado com água de flor de laranjeira coberto por ashtalie, um creme divino à base de nata, sobre o qual é polvilhado pistache moído. Imagine a melhor e mais delicada massa do mundo, esfarelando sobre a língua e misturando-se ao sabor intenso da água de flor de laranjeira que também se mistura a sedosidade do creme geladinho e a crocância da farofa de pistache. Se você babou só de imaginar, garanto que comer é melhor. É cara (R$ 21), mas serve tranquilamente duas pessoas. Não acho a melhor sobremesa da cidade, mas certamente é fantástica.

Para terminar, café turco, preparado com cardamomo (R$ 3,80).

Será que dá pra ler a sorte na borra do meu café com cardamomo?

A tradição e o sabor continuam lá. Mas os preços, claro, são da São Paulo de  hoje.

Tenda do Nilo: Rua Coronel Oscar Porto, 638, Paraíso, tel.: 3885-0460. Só abre para almoço.

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