Bica do Sapato, em Lisboa: John Malkovich sabe das coisas!

O moderno e cool salão do Bica do Sapato

Nos oito dias que fiquei em Lisboa fui a muitos restaurantes, bares e docerias. Muitos. Mas a refeição que mais me surpreendeu foi, sem dúvida, a que fiz na Bica do Sapato.

Instalado numa área de cais moderninha, ao lado de uma Deli chique e de muitas lojas bacanas de objetos para decoração, o Bica do Sapato é um restaurante essencialmente português mas com tratamento contemporâneo. Ou seja: a maior parte dos ingredientes dos pratos são tradicionalíssimos, porém o modo como são utilizados, não.

Queijo de cabra megacurado acompanhado de geléia de tomate, torradas de broa com amêndoas, espuma de azeitonas pretas e rúcula

Dos mesmos donos do Papaçorda, outra casa hypada na cidade mas que não me impressinou nem um tico, o Bica tem sociedade do ator John Malkovich (que quase nunca aparece por lá), é lindo, moderno, claro, com cardápio enxuto, pratos absolutamente bem executados e serviço impecável. Fui em um almoço porque queria curtir a vista do salão: o Tejo. Só ele. Acho tremendamente relaxante passar a refeição conversando e olhando as gaivotas pousarem no deck.

Para começar, pedi a água gasosa que mais curto no mundo, a Pedras Salgadas. Depois de me hidratar, fui checar a fundo o cardápio de entradas que já tinha sido mezzo especulado por mim no site da casa. Enguias fritas com molho escabeche, feijão papo de rola e poejo (16, 50 euros); vieira braseada com flor de sal com arroz malandrinho (18,50 euros); codorniz recheada de trigo sarraceno, moelas e farinheira, ovo mexido com tomilho e aspargos verdes (14,50); queijo de cabra gratinado com doce de tomate, espuma de azeitonas pretas, torradas de broas com amêndoas e rúcula (14,00). Bingo! Sou fascinada por queijo.

Cordeiro assado servido com arroz de miúdos e geléia de laranja

O aroma do prato veio acompanhando o garçom desde a cozinha, semi-aberta. O queijo suuuuuper curado tinha casca verde, bem funguenta, e sabor pungente (ou seja, perfeito). A leveza da espuma de azeitona, o toque gelatinoso do doce de tomate e o adocicado e crocante da broa traziam o equilíbrio ideal e promoviam camadas de sabor e texturas. A acidez da rúcula finalizava grandemente. Simples e impactante.

O ambiente é tão agradável, silencioso e espaçoso– e a conversa estava tão boa–, que quase meia hora se passou antes que eu pedisse o prato principal. Foi difícil escolher: raia confitada em azeite com molho pitau e feijão verde salteado (19,50 euros), atum marinado em poejo e grelhado, milhos fritos, legumes assados e muxama (23 euros), lombo de coelho assado no forno recheado de farofa de broa, purê de feijoca e cenoura suada (22 euros). O meu eleito: Rojões de alcatra de cordeiro em marinada de Sorça, arroz de forno com miúdos e geléia de laranja (21, 50 euros).

Sardinhas empanadas feita na brasa acompanhada de arroz de tomate com…. sardinha

Lindo, aromático, com a carne mais tenra, suculenta e bem cozida que já comi. A marinada (vinho branco, vinagre, alho, louro, segurelha, sal e pimenta) deixou as fibras molinhas e impregnou a carne de forma grandiosa– a faca era um mero detalhe na mesa e não foi usada, não era necessário. O bem temperado arroz de miúdos trazia pedaços bem pequenos de fígado, coração e moela– quem torce o nariz para esses ingredientes não sabe a intensidade de sabores terrosos e potentes que perde. Para equilibrar, geléia doce-azeda de laranja que limpava as papilas gustativas para a próxima mordida.

Trio de sobremesas: bolinho morno de alfarroba com sorvete de lúcia-lima, pudim de vinho do porto e leite-creme de tomilho

Meu namorado foi de Arroz de sardinha com tomate e sardinhas empanadas (19 euros), um dos peixes mais usados na culinária portuguesa, ao lado do bacalhau. As belezinhas vieram montadas em camadas no prato, perfeitamente fritas, douradas e crocantes; em uma panela à parte, o cremosíssimo arroz temperado com coentro. Teria tudo para ser um prato redundante e enjoativo, mas a competência do cozinheiro transformou em um duo de sardinhas equilibrado e delicado.

Já com algumas taças de vinho na cabeça e o estômago cheio, escolher a sobremesa era nossa única responsabilidade no momento. Gulosa como sou, fui logo no trio: Bolinho morno de alfarroba com sorvete de lúcia-lima, pudim de vinho do porto e leite-creme de tomilho (6,50). Aqui, um à parte: PQP! Queria beijar na boca o chef patissier. O bolinho de alfarroba era espesso e cremoso, daqueles que dominam a boca inteira e deixam os dentes pretos (adoro!) e seu calor e doçura com o gelado e refrescante do sorvete de erva-cidreira (a tal da lúcia-lima) era matador; morder o pudim era como colocar um gole sólido do vinho do porto na boca e deixar derreter sobre a língua; e esse leite-creme, espécie de mingau fresco, de tomilho explodiu meu cérebro! Tomilho é um tempero bem desprezado pela maioria dos brasileiros e usado, 99,9% das vezes, em preparações salgadas como em carnes e molhos; sua utilização em doces dá um nó na expectativa (como se fizéssemos um flan de orégano, por exemplo) e, olha, ficou sensacional. Difícil para a maioria das pessoas porque o tomilho tem um gosto oleoso, tremendamente aromático que sobe por detrás da garganta atingindo o nariz– eu adoro. Adorei e comeria um balde.

O outro salão do Bica: na sua frente, apenas o mar

A Bica do Sapato foi uma das melhores experiências em Lisboa: lindo, gostoso, surpreendente. E, para melhorar, não depena a conta: os preços são bem razoáveis para uma casa desta categoria. Inclusive os vinhos, 110% portugueses.

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